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Boa noite, bogodinho. A primeira coisa que eu gostaria de deixar bem clara é que foi seu pai quem bateu o pé pelo agá a mais no seu nome. Eu preferiria Mateus simples, para o bem e para o mal. Por isso, suas canetas bic vão acabar algumas letras antes do normal por culpa dele. Na verdade mesmo... se você puxar seu tio, vai perder todas as suas bics antes mesmo de começarem a rarear a tinta. Mat(h)eus é um nome bíblico, do primeiro e mais direto dos evangelistas. Mas se eu conheço bem meu irmão, é seu nome apenas por ser um belo nome. E nisso, vá lá, eu concordo plenamente com ele. O seu parto foi marcado para a noite, e seu local de nascimento chama-se Freguesia. Eu, que nasci de manhã (e chorando), acho uma lindeza vir ao mundo à noite. Os sentidos se aguçam mais. É o horário nobre da vida. Já nascer na Freguesia não quer dizer muita coisa. É um tasco emancipado de Jacarepaguá, bairro que ganhou esse nome engraçado porque era um pântano que tinha jacarés – bicho que provavelmente você terá em pelúcia – a muuuuito tempo atrás, quando aquele povoado era apenas uma freguesia. Que é o nome que se dava às menores partes de uma cidade, antes de começarem a chamar essas partes pequenas de bairros. O que não tem nada a ver com o batismo do bairro do seu nascimento. A Freguesia ganhou esse nome porque... provavelmente não tinha nome melhor. Pelo menos não houve briga sobre agás. Você vai morar em um prédio bem alto lá no Itanhangá. Assim como Jacarepaguá, Itanhangá ganhou esse nome dos índios, que eram as pessoas que moravam aqui sozinhos com os bichos e as árvores antes dos homens brancos virem lá de Portugal para o Brasil. Os índios eram pessoas parecidas com sua mãe, e os homens brancos eram pessoas parecidas com o seu pai. Mas nem sua mãe é índia e nem seu pai é branco. O que significa que essa coisa de parecência não vale de nada mesmo. Quando os portugueses chegaram aqui, foram tirando o espaço dos índios na base da violência e do etnocentrismo (depois o tio explica). Hoje, quase não existem índios por aqui, mas foram eles que batizaram boa parte dos bairros da cidade. E deram o nome que vai te definir quando você for passear por outras partes do país: carioca. Quer dizer "casa branca", mas ninguém sabe muito bem por quê. Como quase todo lugar aqui no Rio de Janeiro, o lugar que te faz ser carioca, o seu prédio é bem do lado de uma favela. Ela se chama Rio das Pedras. Mas não tem rio e nem tem pedras. Favela é o nome que se dá a um lugar sem infra-estrutura para as pessoas morarem. E, como ninguém gosta de morar sem água encanada, esgoto e serviço de correios, só para dar alguns exemplos do que faz falta por lá, as pessoas só vão para lá quando não tem jeito de ir para outro lugar. As pessoas têm medo de ir para a favela porque dizem que são lugares violentos, principalmente por causa dos tiros entre a polícia e os bandidos. E a violência é quando as pessoas roubam ou atiram uma nas outras. Como nos video-games. E nos livros de história. Na vida real, violência nunca é bom, nem quando você parece ter o melhor dos motivos para praticá-la. Os bandidos têm motivos. A polícia tem motivos. E também os portugueses, quando atiravam nos índios há muito tempo, tinham motivos. Quando você usa a violência, está sempre errado. Se você aprender isso direitinho, pode brincar de atirar nos video-games. Porque são muito divertidos. Sei que, à primeira vista, as pessoas parecem assustadoras. Mas lembre-se, sempre, que a pior coisa do mundo é não poder confiar nas pessoas. Muita gente vai te dizer: "Nunca confie em ninguém, menino. Estão sempre querendo passar você para trás". E eu quero que você tenha pelo menos o seu tio dizendo o contrário. Confie. Porque não existem pessoas boas e más. O mundo seria muito simples se assim fosse. O que é bom e mal depende de cada um. Não deixe que ninguém obrigue você a fazer qualquer juízo de valor. Você terá os seus próprios. E sempre que puder – isso é a pura malandragem que o tio aprendeu –, confie. Como não existem santos e demônios, confiar é a melhor chance que você terá para tirar o melhor de cada um. Às vezes dá errado. Mas o saldo, comigo, tem sido positivo. Ah! E tem mais uma malandragem que eu queria te passar. Quando você já estiver um pouco grandinho, assim, do tamanho de um sujeito-hominho, pede para que o seu pai ou o seu tio ou o seu avô te ensinem os acordes do violão. Ou pede para entrar numa aula de qualquer outro instrumento musical. No começo dói os dedos, mas a música é a melhor maneira de se aproximar das meninas. Foi assim que o papai encontrou a mamãe, o titio encontrou a titia e o vovô encontrou a vovó. E, não se engane: se você preferir os meninos às meninas, a fórmula é a mesma. Porque, como diz o tio Carlinhos Lyra e a tia Dolores Duran, "o negócio é amar". A melhor versão desse verso é com a tia Joyce. Ah! Não se assuste. Aqueles bichos fofos pendurados em cima de você não estão enforcados. Também não estão flutuando. Mas isso (e muitas outras coisas) a gente gosta mais quando descobre sozinho. Seja bem-vindo. Um beijo, Dindinho. |
| filipote October 1, 2007 10:13 AM PDT bunito demais mlk. chorei e tudo sem pilha. | ||
| Ká September 29, 2007 02:03 PM PDT lindo. | ||
| Caroline Morais September 29, 2007 10:00 AM PDT PS: fazemos aniversário no mesmo dia! Se essa coisa de astrologia funciona mesmo, o garoto vai até ser meio em cima do muro, indeciso, mas vai ser feliz demais - e é isso que importa de verdade. :) | ||
| Caroline Morais September 29, 2007 09:59 AM PDT Sensacional, como tudo que você escreve. Na verdade, dos poucos textos seus que li até hoje, este é o melhor de todos. Chorei mesmo com a carta de boas vindas. Singela, naif, linda demais. Espero que o Matheus seja muito feliz, tenha muita saúde e puxe pelo menos metade da sua sensibilidade. Beijo grande e boas vindas ao afilhado! Carol_AOX | ||
| Beta September 28, 2007 06:48 PM PDT Ohn... que lindo!! Imagina ele lendo isso depois??? :)))) Acho que vou te chamar pra ser dindinho do meu filho! HUIhiuahiuha... Beijossss!! E... Matheus, seja bem-vindo!!! :) | ||
| ana September 28, 2007 04:53 PM PDT chorei. | ||
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